Vamos direto ao ponto: quando seu cão decide "abraçar" sua perna com um entusiasmo pélvico questionável, ele não está necessariamente tentando seduzir você. Na grande maioria das vezes, esse comportamento é um extravasamento de excitação sensorial, ansiedade ou uma simples busca por atenção, longe de ser um fetiche canino. É um impulso motor disparado por um sistema nervoso em sobrecarga. Se você esperava uma explicação romântica ou puramente dominante, sinto informar que a realidade biológica é muito mais prosaica e instintiva.

O mito da dominância e a realidade etológica

Durante décadas, a literatura popular de adestramento martelou a ideia de que cada movimento do cão era uma tentativa de golpe de estado para se tornar o "alfa" da matilha humana. Bobagem pseudocientífica. A etologia moderna desmistificou essa visão bélica da convivência. Quando um cão monta, ele raramente está articulando uma estratégia de poder político sobre seus tutores. O buraco é mais embaixo, literalmente. Estamos falando de um comportamento de deslocamento. Imagine que o cão está vivendo uma situação de conflito interno ou um pico de adrenalina que ele não sabe como processar. A energia precisa sair por algum lugar, e o movimento de monta é um padrão motor fixo que o sistema nervoso central recruta para aliviar essa pressão interna. É, em muitos casos, o equivalente canino a roer unhas durante um filme de suspense ou balançar a perna freneticamente em uma sala de espera. O cão não quer o trono da sala; ele quer apenas que o formigamento mental da ansiedade cesse.

A neuroquímica por trás do movimento pélvico

Para entender o fenômeno, precisamos mergulhar no córtex e no sistema límbico do animal. A monta é multifatorial. Em filhotes, trata-se de um ensaio lúdico, uma brincadeira de luta que extravasa para a simulação sexual sem qualquer conotação reprodutiva real. É o cérebro testando ferramentas. Já em adultos, a dopamina desempenha um papel crucial. Quando o cão recebe uma visita, ou quando você chega em casa após dez horas de ausência, o sistema de recompensa dele explode. O cão fica inundado de neurotransmissores de prazer e antecipação. Se ele não possui repertório comportamental para lidar com esse tsunami químico, ele recorre ao atavismo. A monta gera um feedback tátil e proprioceptivo que, momentaneamente, organiza aquele caos sensorial. É um curto-circuito. Além disso, existe a questão do aprendizado operante: se o cão monta e você ri, grita ou até o empurra (interação física), ele recebeu o que queria — atenção absoluta. Para um animal social, o feedback negativo ainda é infinitamente superior ao vácuo da indiferença.

Implicações práticas no cotidiano e o gatilho do estresse

Ignorar a causa raiz é o erro crasso de muitos tutores que focam apenas na punição do ato. Precisamos analisar os gatilhos ambientais. O cão monta mais quando chegam visitas? Isso aponta para uma fobia social ou um déficit de socialização. Ele faz isso após sessões intensas de brincadeira? É exaustão e incapacidade de autorregulação. O comportamento de monta é um termômetro fidedigno do bem-estar psicológico do animal. Se o hábito se torna compulsivo, estamos diante de um quadro de estereotipia que pode indicar que o ambiente é pobre em estímulos ou excessivamente estressante. Castrar ajuda? Talvez, se o componente for estritamente hormonal, mas se o problema for comportamental — o que ocorre em 70% dos casos de monta em humanos — a cirurgia não será a bala de prata. O foco deve ser o manejo ambiental e a construção de um repertório de calma, ensinando o cão que existem formas muito mais elegantes e funcionais de pedir um petisco ou lidar com a chegada do entregador de pizza do que usar a canela de alguém como acessório de descompressão.

Erros comuns e dicas de especialistas

Um dos maiores erros cometidos pelos tutores é a punição física ou verbal excessiva. Gritar com o animal pode aumentar o nível de estresse e ansiedade, o que, ironicamente, pode intensificar o comportamento de montar como uma válvula de escape emocional. Outro equívoco frequente é a recompensa acidental. Se você ri, empurra brincando ou dá qualquer tipo de atenção (mesmo que negativa) no momento exato da monta, o cão entende que obteve sucesso em atrair o seu olhar.

Para corrigir o hábito, especialistas recomendam a técnica do redirecionamento imediato. Assim que perceber os sinais de que o cão vai montar (como lamber excessivamente ou abraçar as pernas), ofereça um comando sentado ou jogue um brinquedo. O objetivo é substituir o comportamento indesejado por um positivo. Além disso, garantir que o animal tenha uma rotina rica em estimulação mental e exercícios físicos é fundamental; um cão cansado e satisfeito raramente sentirá a necessidade de montar para extravasar energia acumulada.

Perguntas Frequentes

1. Castrar o cachorro resolve o problema da monta?

Nem sempre. Embora a castração reduza os impulsos hormonais e sexuais, a monta em humanos é frequentemente um hábito comportamental, social ou emocional. Se o cão já aprendeu que montar é uma forma de aliviar o estresse ou chamar atenção, ele pode continuar fazendo isso mesmo após a cirurgia. O foco deve ser o treinamento comportamental.

2. É verdade que ele faz isso para mostrar que é o "alfa"?

Essa é uma visão antiga. Atualmente, a ciência do comportamento canino entende que a monta está mais ligada ao excesso de excitação, falta de autocontrole ou ansiedade do que a uma tentativa de domínio hierárquico. O cão não quer dominar a família, ele apenas não sabe como gerenciar suas emoções naquele momento.

3. Devo me preocupar se for um comportamento muito frequente?

Sim, se o comportamento for obsessivo. Quando a monta ocorre de forma compulsiva, pode indicar problemas de saúde, como alergias cutâneas, infecções urinárias ou desconforto na região genital. Se o redirecionamento não funcionar e o cão parecer ansioso, uma consulta com um veterinário é indispensável.

Veredito Editorial

Entender por que o cachorro trepa na gente exige olhar além do constrangimento social. Na maioria das vezes, é apenas um pedido de ajuda ou uma descarga de energia mal canalizada. A chave para uma convivência harmoniosa não é reprimir o animal, mas sim educá-lo com paciência, oferecendo alternativas saudáveis para que ele se comunique. Com limites claros e afeto, esse comportamento tende a desaparecer naturalmente.