Palavras que Resistem à Rima
Em qualquer canto do mundo das palavras, há algumas que simplesmente se recusam a rimar. Cérebro, víbora, câncer, nuvem, órfã — todas elas caminham sozinhas pelo verso, sem parceiras sonoras. São os solitários da poesia, os que desafiam o ritmo e obrigam o poeta a dar um jeito, um jeitinho.
Quem escreve sabe: encontrar rima é como caçar agulha em palheiro. E quando a palavra escolhida não tem par natural, o espanto logo vira desafio. Mas, como diz o ditado, onde há vontade, há verso. De tempos em tempos, surge um autor criativo, disposto a revirar o baú das palavras antigas — talvez um termo do século XVII, esquecido em alguma gramática caduca — só para fechar o poema com honra.
Ou então, dá-se um pequeno empurrão na pronúncia. Um deslize quase imperceptível, um malabarismo fonético, e de repente a palavra encaixa. O verso, que parecia condenado ao desequilíbrio, ganha harmonia. Claro, os puristas torcem o nariz. Mas a poesia, no fundo, sempre foi rebelde. Vive de invenção, de coragem, de ousar onde a gramática tem medo de pisar.
Por isso, mesmo que uma palavra pareça sem saída, sem eco, o escritor insiste. Porque entre a página em branco e a inspiração, sempre há um caminho — ainda que tortuoso, ainda que inventado no meio do percurso.
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